Despensas – a tradição de Rabo de Peixe

projeto fotográfico de Rubén Monfort

13 set - 17 nov 2019

Exposição de Fotografia

Despensas – a tradição de Rabo de Peixe 

Rubén Monfort

13 set – 17 nov 2019

Serviço Educativo

O ARQUIPÉLAGO – Centro de Artes Contemporâneas inaugurou, dia 13 de setembro, a a mostra expositiva de Rubén Monfort “Despensas – a tradição de Rabo de Peixe”, que ficará patente até 17 de novembro, no Serviço Educativo

 

Rubén Monfort vive em São Miguel há cinco anos. Durante o ano de 2018 acompanhou e documentou, com entrevistas e fotografias, as Despensas de Rabo de Peixe, tradição única no território nacional, com origens antigas e imprecisas. Embora as Despensas sejam dançadas em inúmeras ocasiões durante todo o ano, é nas festas do Espírito Santo que todas se reúnem, saindo à rua para dançar com trincadeiras (castanholas), cantar cantigas tradicionais a despique, acompanhadas por acordeões, violas e violinos. Em agrupamentos de 15 a 20 homens, dividem-se entre as Despensas da Terra e as Despensas do Mar, aludindo às duas principais actividades da vila que ocupam os seus participantes, ainda que as profissões por vezes se misturem dentro de cada Despensa.

Esta instalação sintetiza essa pesquisa e esse olhar. Ao entrarmos, somos recebidos pela fotografia de um quarto do Espírito Santo, atraindo-nos pela sua dimensão e centralidade. À sua esquerda, vemos imagens da preparação da festa: um grupo de homens num ensaio, uma das casas do Espírito Santo, o Sr. António Silva de uma das Despensas da Terra a tocar acordeão, a vaca comprada por uma Despensa para mais tarde ser partilhada entre os seus membros, mulheres a preparar comida para receber os membros das Despensas em sua casa, os suportes para os enfeites da rua, o ramo de alecrim com que o padre abençoará a massa sovada. À direita da imagem central, a festa em si: músicos da Banda Lira do Norte de Rabo de Peixe antes do início da procissão, caudas de vestidos que arrastam na sua passagem ramos de criptoméria, diferentes Despensas no momento de seus bailes, a união emotiva dos homens a cantarem juntos para o Espírito Santo, as Despensas a cantarem dentro das casas, a continuação dos festejos pela noite na rua, a calma a que tudo regressa quando estes terminam.
Nesta celebração maioritariamente masculina, há um único momento em que as mulheres dançam com os homens, entrando na roda formada por estes. Também o visitante desta exposição é convidado a entrar na roda, para ver a festa, as pessoas, os seus momentos, as suas expressões, os seus detalhes.
A pequena dimensão da ilha revela-se ilusória: guarda surpresas com as Despensas, desconhecidas para muitos. Conhecer um lugar é conhecer-lhe as estações, aproximar-se dele devagar, escutando-o, aprendendo os seus hábitos, os seus ritmos, os seus rostos, os seus nomes. Rubén Monfort permanece e, lentamente, entra, escuta, tenta perceber. O seu trabalho acusa a preocupação estética dos enquadramentos, das composições depuradas, dos contrastes tonais, da atenção ao detalhe. Mas essa estética, sendo-lhe própria, não cede à tentação de exoticizar o “outro”, exponenciando uma diferença em benefício do seu cunho autoral. Antes dá a primazia à festa, aos seus momentos e às pessoas. Essas pessoas estão antes do seu olhar, da marca do seu olhar.
Essa descrição (no sentido continental e insular) é uma forma incomum de respeito e de humildade. E uma maneira muito particular de devolver o que lhe foi dado, pelas pessoas das Despensas de Rabo de Peixe.

Luísa Cardoso

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